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  31/12/2015
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Por que a lei seca salva 50 vidas por dia

Desde que beber e dirigir foi proibido, as mortes no trânsito brasileiro caíram pela metade. Conheça a base científica da "tolerância zero", a experiência em outros países e o que esperar quando as blitze acabarem

Por que a lei seca salva 50 vidas por diaEram seis da manhã de 3 de setembro de 2006, início de um domingo ensolarado no Rio de Janeiro. Em um trecho da avenida que contorna a lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul, curiosos se aglomeravam em torno de policiais e bombeiros, atraídos pelos sinais de tragédia.

O cenário traçado pelo cordão de isolamento contava a história: um rastro de destruição cortava a pista até uma árvore no canteiro central, recém-ferida por um Honda Civic preto que jazia a seu lado, amassado como papel. Próximos, estirados lado a lado no chão, os cadáveres de Ana Clara Padilla, 17 anos, Ivan Guida, 18 anos, Manoela Rocha, 16 anos, e Felipe Villela, 22 anos. Joana Chamis, 17 anos, foi retirada das ferragens com vida, mas morreu no hospital para onde foi levada.

"Senti um pedaço ser arrancado do meu peito, para sempre, ao ver minha filha inerte sob um plástico preto. Uma imagem de pavor absoluto, que ficou gravada em minha retina", escreveu Gabriel Padilla no livro "Relato de um Amor", sua homenagem à filha Ana Clara. Os jovens cariocas foram apenas cinco dos 50 brasileiros que morreram naquele dia em acidentes de trânsito causados por consumo de álcool.




Antes e depois: acima, acidente na lagoa rodrigo de freitas em 2006, que matou cinco jovens; à esquerda e abaixo, operações pós-lei seca no rio e em são paulo

A saideira
De um dia para outro - mais especificamente, de 19 para 20 de junho -, beber e dirigir virou crime. Tudo bem que quase ninguém sabia, mas até então só seria punido quem fosse flagrado ao volante com mais de 0,6 grama de álcool por litro de sangue, concentração alcançável com três chopes. A margem de tolerância atual, 0,2 g/l, é tão baixa que, na prática, obriga o motorista à abstinência.

Seja pelo exame de consciência ou pelo teste do bafômetro, o fato é que, com menos de um mês de vigência da lei seca, o número de mortos nas ruas e estradas do Brasil caiu 50% em média (ver quadro "Estatísticas quilométricas"). Comparando com as trágicas estatísticas de anos anteriores, são 50 mortes a menos por dia, 1.500 menos em um mês. Se o "milagre" durar um ano, até o meio de 2009, serão 18 mil mortes e 200 mil feridos abaixo do esperado, uma economia de R$ 12,5 bilhões em atendimento hospitalar. É improvável, mas, como foi demonstrado, não é impossível.

Curiosamente, a queda de 50% nas mortes rima com outra média histórica. "Somos campeões mundiais de acidentes de trânsito, e a metade dos que morrem está alcoolizada", diz Vilma Leyton, professora de medicina legal da USP e por 30 anos legista do IML de São Paulo, ao longo dos quais realizou vários estudos que comprovaram a tese da embriaguez fatal. Para a professora, "a lei é excelente por causa da repercussão que está tendo. Estamos observando até queda na violência doméstica".

Especialistas argumentam que a lei de 1997, a dos 0,6 g/l, nunca pegou porque nunca foi aplicada. Dessa vez está sendo diferente: a polícia do Rio, que tinha míseros três bafômetros em junho, no segundo fim de semana de julho iniciou a operação Pressão Total, abordando 330 pessoas em 22 pontos diferentes da capital. Em São Paulo, a ação que vem inibindo paulistanos desde 27 de junho é a Operação Segura, que já deteve 61 pessoas.

Não sem polêmica: muitos se negam a soprar no bafômetro - um advogado de São Paulo até conseguiu uma liminar que vale como "passe livre" para o aparelho. Nesse caso, a lei determina que o motorista seja levado para uma delegacia e convidado a fazer exame de sangue. Se ainda bater pé, paga multa e responde a processo. Mas o limite permanece. "Não há possibilidade de recuo", disse o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ao jornal "Folha de S.Paulo". "A sociedade é quem vai julgar se serão precisos ajustes. Quem não pretende cumprir a lei vai mudar de opinião quando for preso. Será bastante pedagógico."



Passava das cinco da manhã quando o Honda Civic preto dirigido por Ivan deixou uma casa noturna na Lagoa. Ao seu lado estava a namorada, Ana Clara, e no banco de trás os amigos Felipe, Manoela e Joana. Após dois quilômetros, surgiu uma curva aberta para a direita, e o carro, a 110 km/h - limite: 70 km/h -, saiu pela tangente. A roda traseira esquerda bateu com força no meio-fio e se quebrou, soltando do eixo. O carro decolou. Em seguida, foi capotando até bater em um fícus de tronco forte, que absorveu o impacto e desviou a trajetória do veículo. Logo o carro pegou fogo a partir da traseira. Segundo o laudo da Polícia Civil, o motorista tinha 1,4 grama de álcool por litro de sangue. Felipe tinha 2, Manoela, 0,8, e Joana, 0,7 - todos acima do limite da época, 0,6. A única vítima com teste negativo de alc0olemia foi Ana Clara Padilla. Também era a única que usava cinto de segurança.






Ação e reação: à esquerda, noite de sábado no bar municipal, na Vila Madalena, recanto boêmio de São Paulo. Maria Clara Malluta bebe cerveja, que a amiga Luciana Teixeira preferiu trocar por uma água mineral. Na mesma noite e no mesmo bairro, o bar Pero Vaz sofre com o medo da blitz. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes estima em 25% a queda de movimento nos bares do país após a vigência da lei seca



Toda dose é dose
De longe, o aspecto mais discutido da lei seca é a "tolerância zero". Modificou-se o artigo 276 do Código de Trânsito Brasileiro, que agora diz que "qualquer concentração de álcool por litro de sangue sujeita o condutor às penalidades previstas". Camila Silveira, coordenadora científica do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, defende o fator pop do novo limite. "As pessoas não sabiam muito bem qual era o limite. Zero todo mundo entende." Outro problema dos números, segundo a psicóloga americana Cecile Marczinski, é que "temos dificuldade de estimar o que gera um índice como 0,6 g/l. Em geral, ultrapassamos esse limite facilmente, mas achamos que ainda estamos dentro dele".

Por enquanto, vale a margem de tolerância que corresponde a distorções dos exames e evita confusões com antissépticos bucais e bombons de licor: 0,2 g/l (equivalente a 0,1 mg de álcool por litro de ar expelido no bafômetro). Isso é igual a um chope. Quase nada, mas suficiente. "Meia lata de cerveja já pode afetar a concentração, frear reflexos, provocar alterações fisiológicas", dizem Camila e inúmeros estudos. Você que bebe e dirige ainda duvida? Foi mal, mas você é a pior pessoa para opinar sobre o assunto. "Até sóbrio a gente superestima nossa habilidade e subestima os riscos. Fica fácil imaginar como isso piora depois de tomar umas", diz Tom Vanderbilt, autor do livro "Traffic", saudado como o "Freakonomics do trânsito".

Vanderbilt também chama atenção para o "efeito desinibidor do anonimato". Na internet, ele faz com que as pessoas saiam xingando todo mundo, seguras de que não serão identificadas. No trânsito, também. E ainda alimenta maus e solitários hábitos, como beber e dirigir. "Todas as noites, bêbados sortudos chegam em casa sem saber quantos quase-acidentes provocaram. Como não há ninguém que conte para eles, a crítica essencial ao aprendizado não acontece, e o comportamento é reforçado. 'Eu bebi, eu dirigi, cheguei inteiro. Então vou fazer de novo'."

Se até quando estamos sóbrios superestimamos nossa performance ao volante, imagine quando bebemos. Você não é apto para julgar sua direção

Vale lembrar que o álcool afeta o hipocampo, área do cérebro responsável pela formação de memórias. Ou seja, quem bebe e dirige nem tem como lembrar direito se fez um percurso tranqüilo ou se deveria agradecer ao anjo da guarda. Projeção psicológica também é um fator: nosso carro é seguro, perigoso é o dos outros. Mas pense: você embarcaria em um avião sabendo que o piloto bebeu só um pouquinho? Por fim, sempre ela, a cultura: brasileiros bebem a qualquer hora, em qualquer lugar, desde muito jovens. "Nossa sociedade está acostumada a um consumo de álcool muito alto. Tem de haver uma quebra de paradigma", diz o consultor de trânsito Horácio Figueira.

Infelizmente, os efeitos do álcool no cérebro vão bem além das horas de ressaca. "Se você esteve bebendo em níveis alcoólatras (cinco doses ou mais praticamente todo o dia da semana por um mês), só vai recobrar suas funções cerebrais normais após meses. Talvez anos", diz a professora Edith Sullivan, da faculdade de medicina da Universidade de Stanford, especialista nos efeitos de longo prazo da manguaça na cuca. "Outra má notícia: ainda não sabemos se os neurônios mortos pelo álcool podem se regenerar. Estudos feitos com roedores indicam que sim, mas ainda é incerto para humanos."

No entanto, não se pode omitir as muitas pesquisas que mostram benefícios do álcool para o organismo. Exemplo: quando ingerido em volumes comedidos (1 dose para mulheres; 2 para homens), ele pode prevenir doenças cardiovasculares. Aumenta o colesterol bom, evita a arteriosclerose e também ajuda a tornar o sangue menos espesso e a diminuir as placas de gordura das artérias. Além de deixar você mais relaxado, feliz, falante e sociável. "Mas temos que tomar cuidado, as pessoas podem usar esses dados de maneira errada. O médico não deve recomendar: álcool não é remédio", diz Camila Silveira.



Às três da madrugada, quando saíram de uma festa na casa de amigos, os pais de Manoela viram três ligações não atendidas da filha e ligaram na hora. Ela estava em um aniversário numa boate da Lagoa. Ficou combinado que Manoela não iria demorar e levaria as amigas Joana e Ana Clara para dormir em sua casa. Orientada pelos pais, ela pediu um táxi de uma cooperativa conhecida. Mas, cinco minutos depois, o pedido foi cancelado. Todas pegaram carona com Ivan, namorado de Ana Clara havia cinco meses.

"Minha filha tinha ordens expressas de nunca voltar com o namorado após a meia-noite", escreveu seu pai. "Mas, como Ana Clara já havia se recusado a voltar com o namorado pelo menos uma vez antes, acredito que tenha optado por ceder. Certamente queria evitar uma briga e avaliou que o percurso era pequeno, e talvez esse tenha sido o seu maior equívoco."

O álcool também tem seu lado bom: em pequenas doses, ajuda o coração e afina o sangue. Mas nunca será receitado: álcool não é remédio

Problemas legais
Cabem outros adjetivos além de "seca" à Lei Federal 11.705. É inesperada, pois pegou de surpresa muitos brasileiros - inclusive alguns deputados federais que a aprovaram sem ler. É pesada, colocando o Brasil na elite da rigidez contra álcool ao volante. Para alguns, é injusta, porque julgam ser possível beber e depois dirigir normalmente. Além de perigosa, pois ampliaria as oportunidades de atuação de policiais corruptos. Mas gera debate no meio jurídico por ser inconstitucional.

Para Cyro Vidal, presidente da Comissão de Assuntos e Estudos sobre Direito de Trânsito, isso ocorre em dois pontos. Primeiro quando diz que, se o cidadão se recusar a submeter-se ao bafômetro ou exame de sangue, ele receberá as mesmas sanções aplicadas a quem tiver detectado algum nível de alcoolemia. "A Convenção Americana de Direitos Humanos, assinada pelo Brasil, diz que nenhuma pessoa é obrigada a produzir prova contra si mesmo. A autoridade está me coagindo a fazer o teste", diz o advogado, que também critica as novas penas estabelecidas. "A suspensão do direito de dirigir por 12 meses não é proporcional, como estabelece a Constituição. É aplicada a mesma punição para quem tomou duas taças de vinho e para quem está completamente embriagado. Uma maneira de resolver isso seria colocar 'de 6 a 12 meses', de '8 a 12 meses', que seja, para o juiz estabelecer a pena proporcional."

"Podemos discutir detalhes de regulamentação da lei, mas precisamos apoiá-la", diz a professora Vilma Leyton, da USP. É o que os brasileiros estão fazendo, ao menos da boca pra fora: na semana em que a lei passou a vigorar, pesquisas indicavam aprovação de quase 90% nas grandes capitais. Mas quantos estão convencidos de que beber e dirigir não se misturam e quantos estão com medo do bafômetro? Será que, quando as blitze acabarem, a lei continuará sendo cumprida?

Ainda que haja uma clara tendência mundial de endurecimento contra o álcool ao volante, exemplos de outros países mostram que o código de trânsito só é cumprido quando combinam-se legislação, fiscalização e educação. Estudos do sociólogo israelense David Shinar mostram que as pessoas são mais sensíveis à possibilidade de serem presas do que ao tamanho da punição. Se há leis muito fortes contra beber e dirigir mas muito pouca coação (ou existe a possibilidade de subornar funcionários corruptos), as pessoas tendem a ignorar a lei. Em seu livro "Traffic Safety and Human Behavior" ("Segurança no Trânsito e Comportamento Humano"), Shinar inclusive cita um estudo com pessoas saindo de pubs, que sabiam ter mais chance de sofrer um acidente grave do que de serem presas - e, após responder ao questionário, voltavam dirigindo.


RISCOS E DANOS
Quando ingerida em excesso, a bebida alcoólica afeta praticamente todas as partes do organismo, a curto e a longo prazo. veja quais são os órgãos que mais sofrem com a bebedeira e os problemas que ocorrem ou são favorecidos por ela


1. CÉREBRO: dor de cabeça, insônia ou sonolência, tontura, alteração da fala, falta de coordenação, agressividade, depressão, alterações de humor e memória, medos inexplicáveis, nervosismo, epilepsia, demência, raciocínio mais lento, danos à visão, convulsões, alucinações, desorientação espacial e temporal, perda de consciência, anestesia, coma profundo e morte por parada respiratória
2. ROSTO: deterioração, irritação e inchaço nos olhos, envelhecimento prematuro e câncer na boca
3. GARGANTA: câncer e tosse crônica
4. ESÔFAGO: câncer e varizes
5. SISTEMA CARDIOVASCULAR: lesões, cardiomiopatia, insuficiência cardíaca, pressão alta, taquicardia, fraqueza do músculo cardíaco, problemas de coagulação sanguínea, arritmias, trombos e derrame e acidente vascular cerebral
6. FÍGADO: degeneração gordurosa, cirrose, câncer e hepatite
7. MÃOS: tremores, formigamento e falta de sensibilidade nos dedos
8. PÂNCREAS: inflamação e diabetes
9. ESTÔMAGO: inflamação, vômito, diarréia, deficiência de vitaminas, desnutrição e úlcera
10. DUODENO: úlcera
11. RINS: defeito no funcionamento e infecção urinária
12. PRÓSTATA: câncer
13. SISTEMA REPRODUTIVO: diminuição da fertilidade e do desejo sexual, impotência e ginecomastia (aumento da mama) nos homens, aborto, desregulação na menstruação, câncer de mama. Parto de crianças com defeitos, síndrome de abstinência com convulsões, dificuldades de aprendizado e problemas psicológicos
14. PERNAS: enfraquecimento, quedas e degeneração muscular
15. PÉS: formigamento e falta de sensibilidade nos dedos



Aperitivos típicos
A Nigéria, por exemplo, tem uma lei mais rígida que a nossa: não permite nem uma gota de álcool. Apenas uma boa intenção, já que o país tem uma das piores taxas de morte no trânsito do mundo, 40 por 100 mil habitantes. A Argentina quis fazer bonito e baixou o limite para 0,5 g/l, padrão europeu. Mas, quando o policial flagra o motorista acima desse limite, o procedimento padrão é os dois ficarem dando um tempo no acostamento até que o nível baixe.

Na Noruega, a multa para quem bebe e dirige é proporcional à renda do motorista. Um milionário teve de pagar o equivalente a R$ 135 mil

Já a legislação atual dos Estados Unidos é mais branda que a anterior do Brasil: maiores de 21 anos estão liberados com 0,8 g/l de concentração de álcool no sangue, o que dá umas quatro latinhas de Budweiser. Mas a possibilidade de ser pego existe, o que fez com que o número de motoristas alcoolizados envolvidos em acidentes caísse de 50% nos anos 1970 para 20% atualmente. O escritor Tom Vanderbilt conta que essa história começa antes do automóvel. "No século 19, beber já era proibido para condutores de locomotivas, por exemplo. Mas passaram-se algumas décadas até que fosse produzido um conjunto de trabalhos científicos que mostrassem a conexão entre consumo de álcool e o risco de acidentes. O processo em andamento é tornar cada vez menos socialmente aceitável dirigir 'sob a influência', como dizemos nos Estados Unidos. É o que está rolando aí agora, certo?"



Nos últimos cinco anos, enquanto as mortes no trânsito brasileiro cresceram 17%, diminuíram 35% na França. Na cidade de Rouen, está valendo a lei que diz que motoristas flagrados com excesso de álcool no sangue podem ter os veículos confiscados. A idéia é passar o problema adiante para outras pessoas que dependem daquele carro. A medida deve ser adotada em todo o país.





Na Noruega, primeiro país a criar um código de trânsito, em 1936, a multa é proporcional à renda. Ficou famoso o caso do empresário do ramo imobiliário Kjetil Üleberg, que, após uma noite regada a vinho, foi pego na manhã seguinte com 0,7 g/l de álcool no sangue - o limite norueguês é 0,2 g/l, como no Brasil. Resultado: um alívio equivalente a R$ 135 mil, perda da carteira por dois anos e trabalho forçado de cortar lenha durante 30 dias. "Além disso, aprendi minha lição", disse ao jornal "Afterposten".



DOCUMENTO FRÁGIL
Pela nova lei, quem beber além de um copo de chope (350 ml) pode perder a carteira de habilitação por um ano e pagar multa de R$957




Sábado à noite, Ana Clara foi ao teatro com uma tia e um casal de primos assistir ao musical "Cats". Sua mãe, Vitória, estava em São Paulo, e o pai, Gabriel, havia ficado no Rio com os quatro filhos. Ele havia dito à filha adolescente para não combinar nada depois do teatro, pois estava com infecção na garganta, tomando antibiótico, precisando descansar. Mas ela pediu para dormir na casa de uma amiga, para conversar e ver um filme. Como negar? Na verdade, a casa da amiga seria o local para um encontro com o namorado, para juntos irem a uma festa que ela tanto queria, em uma boate da Lagoa.

"Transgressão típica da idade, minha filha me enganou. Mas quem, quando jovem, nunca mentiu para os pais? Principalmente uma jovem tão apaixonada", escreve Gabriel Padilla em seu livro. À noite, ele dormiu assistindo ao filme "Romeu e Julieta", de Franco Zeffirelli, na TV.

Nosso cérebro não consegue fazer duas tarefas simultâneas sem prejudicá-las. Isso inclui dirigir e falar ao celular, claro

Vida pós-blitz
Tecnicalidades à parte, a lei seca chegou sem nenhuma contrapartida oficial para a súbita privação do direito de ir (beber, dirigir) e vir. Nada de vans noturnas, como em Nova York, metrô de madrugada, como em Londres, ou ônibus recolhendo boêmios, como em Porto Seguro, terra da Passarela do Álcool. Coube ao setor privado, pressionado pela queda de movimento, preencher a lacuna, oferecendo bafômetros para os clientes, convênios com cooperativas de táxi, desconto para o caroneiro da noite, pernoite grátis no estacionamento, "cliente delivery" e motorista para levar e buscar - inclusive dirigindo o carro de quem bebeu. A prefeitura de Belo Horizonte está até cogitando oferecer transporte público específico para os eventos gastroetílicos que promove.

Medidas criativas, aliadas às blitze, certamente ajudaram a contribuir para que as mortes no trânsito despencassem pela metade. Bom, mas e a outra metade? Como evitar as outras 18 mil mortes por ano no trânsito? Óbvio e verdadeiro: aumento do uso de cinto de segurança, capacete e cama - motorista com sono é motorista perigoso; construção de estradas de mão dupla, com os dois sentidos divididos, sem obstáculos e com capeamento perfeito; fiscalização em cima dos veículos muito antigos; reduzir velocidades máximas nas áreas urbanas; lembrar do pedestre. E, por mais estranho que possa parecer, reduzir a corrupção. "Há uma conexão curiosa entre os índices de corrupção e as vítimas de trânsito. Mas faz sentido: motoristas (todo mundo, na verdade) ficam mais dispostos a seguir a lei quando há incentivo e exemplos próximos, quando não precisam ou não conseguem se livrar de irregularidades com suborno", afirma Vanderbilt. "Quanto mais as leis de trânsito são obedecidas, mais seguras ficam as ruas."






Alternativas: restaurantes já oferecem serviços de leva-e-traz para seus clientes

Também é preciso encarar um fato simples: não conseguimos realizar duas tarefas simultaneamente sem prejuízos para ambas. Sim, isso tem a ver com dirigir e usar o celular. Ocorre sempre o que o psicólogo Barry Kantowitz, da Universidade de Michigan (EUA), chama de "detrimento cognitivo". Leitura dinâmica prejudica a compreensão. A nuvem de informações nos canais de notícia impede a compreensão da notícia em si. Até caminhar falando ao telefone faz você caminhar pior. Agora imagine falar ao telefone dirigindo um carro, tarefa que ocorre em alta velocidade e requer muito mais processamento de informação. "Diferentemente do álcool, temos uma imagem positiva associada com celular no carro. Mas essa imagem é uma ilusão. Leis não bastam: precisamos de uma norma social que diga que não é uma boa idéia dirigir e conversar. Ah, e o viva-voz livra as mãos, mas não a mente", afirma Vanderbilt.

Na contracorrente de tudo que você leu até aqui, há cientistas trabalhando para que bebida e direção possam se misturar. Se tiramos calorias da comida, a gravidez do sexo e até o sexo da gravidez, por que não tirar o dano do álcool?

Outro visionário é David Nutt, psicofarmacologista que busca desenvolver o que ele chama de "álcool mais seguro" (em inglês, "safer alcohol") na Universidade de Bristol, Inglaterra. Ele acredita ser possível desenvolver drogas que bloqueiem os efeitos indesejados do álcool.




Pílula da sobriedade: os laboratórios roche já desenvolveram uma droga que deixa um bêbado sóbrio em minutos. mas ela não livra ninguém do bafômetro

Quem bebesse ficaria alegre, mas não desajeitado ou enjoado, manteria sua memória e seus reflexos intactos e não teria ressaca. Seu interesse principal é desenvolver uma substância que não cause dano ao coração, fígado e cérebro. "Mas eu enfrento a indignação moral", declarou Nutt à revista "New Scientist". Acontece que a maioria no campo de tratamento do alcoolismo acredita ferventemente que a única solução é ser abstêmio, e qualquer coisa que incentive a bebedeira sofre oposição cerrada.

Você pode ficar surpreso, mas vai fazer 21 anos que a Roche desenvolveu a chamada "pílula da sobriedade". Chamada de Ro15-4513, é um antídoto potente para intoxicação alcoólica, capaz de deixar um rato bêbado sóbrio em minutos. Como você nunca ouviu falar dela? Por que não vende na farmácia? "Acontece que ela elimina as conseqüências comportamentais da bebedeira, mas não tem efeito sobre o nível de álcool no sangue nem sobre suas conseqüências a longo prazo", diz Richard Olsen, lider de um time que pesquisa álcool na Universidade da Califórnia. Além disso, costuma causar enxaquecas e só dura meia hora. Ou seja: a pílula desenrola a língua, mas não salva do teste do bafômetro.

No sábado à tarde, um marceneiro esteve na casa dos Padilla, colocando um gaveteiro novo no guarda-roupa de Ana Clara. Ela combinou com o pai: "Amanhã você me ajuda a arrumar o meu armário, pois tenho roupa que não quero mais". O domingo também previa estudos à tarde e pizza à noite. Mas, para ela, o domingo acabou às cinco da manhã. Seu pai lembra do último contato. "No sábado à noite, Ana Clara me deu tchau e saiu para o teatro com a tia e os primos. Voltou menos de dez minutos depois. 'Sou bem sua filha, pai. Sempre esqueço algo quando saio: o antibiótico.' Queria bem me dizer: 'Sou sua filha, pai, e sempre serei'. Queria bem me ver pela última vez... Eu não sabia que seria. Ela também não sabia."


MEU CÉREBRO BÊBADO
A repórter Emily Singer se submeteu a um eletroencefalograma para demonstrar o estrago que o álcool causa no órgão mais importante do corpo humano

É meio-dia e eu estou tentando engolir uma vodca dupla com suco de amora o mais rápido possível. Apesar da fama dos jornalistas, beber na hora do almoço não é uma atividade típica para mim. Hoje vou visitar Alan Gevins, neurocientista que passou os últimos 40 anos desenvolvendo maneiras mais eficazes de analisar os sinais elétricos que emanam de nossos cérebros. Seu objetivo é entender como nossa memória e nossa concentração são alteradas por diferentes drogas, por falhas causadas por doenças neurológicas e pelo envelhecimento.
Em aproximadamente 20 minutos, quando o álcool tiver levado meu cérebro para o pico da embriaguez, a equipe de Gevin irá medir o impacto da droga em meus neurônios. O detalhe é que estarei realizando uma série de testes cognitivos ao mesmo tempo.

A eletroencefalografia vem sendo usada há décadas para medir a atividade elétrica produzida pelo cérebro. Tudo é captado por eletrodos estrategicamente posicionados sobre a cabeça. Nos últimos anos, com o aumento do poder de processamento dos computadores e a crescente sofisticação dos softwares, cientistas puderam registrar e analisar esses sinais de forma mais eficaz, entendendo melhor o que há por trás das tempestades elétricas que rolam no cérebro. Hoje o exame é usado tanto clinicamente - por exemplo, para identificar a fonte de convulsões em pacientes que sofrem de epilepsia - quanto para pesquisas como as que procuram estudar o cérebro durante o sono.

Gevins, fundador do Instituto de Pesquisas sobre o Cérebro de São Francisco (EUA), desenvolveu um sistema que combina eletroencefalografia e testes cognitivos. Ao acessar campos da memória de alguém ou medir sua habilidade ao realizar tarefas simultâneas, ele busca meios mais precisos de avaliar as habilidades cerebrais.

"Em 20 minutos, quando o álcool tiver levado meu cérebro ao pico da embriaguez, a equipe de Gevin irá medir o impacto da droga em meus neurônios."

Pesquisas realizadas pelo grupo de Gevins sugerem que beber pode ser muito mais desastroso para nossas habilidades do que se imaginava. Depois que os efeitos comportamentais do álcool desaparecem, a substância continua a agir no cérebro por mais duas ou três horas. Isso ocorre mesmo quando a concentração alcoólica no sangue é menor do que 0,2 g/l ou um quarto do limite legal para um motorista na maioria dos estados americanos. "Você pode até ser capaz de driblar pequenas falhas de atenção e se sair bem em testes cognitivos, mas o cérebro ainda está afetado", diz Aaron Ilan, o principal neurocientista da equipe de Gevins. "Você não será capaz de manter a atenção total em uma tarefa, como dirigir por várias horas", afirma Ilan. A equipe está finalizando um amplo estudo sobre os efeitos de drogas como álcool, maconha e cafeína em simulações de direção. A pesquisa também avaliará o impacto das substâncias em testes de atenção, memória de curta duração e simultâneas.

Depois de engolir o resto do meu drinque, volto ao laboratório do Dr. Givens. Naquela manhã, os pesquisadores ajustaram um chapéu em minha cabeça. Ele é pontilhado por espaços onde pequenos sensores que detectam a atividade elétrica em diferentes pontos da cabeça são encaixados. Tudo isso é ligado a um amplificador que manda sinais, via Bluetooth, para um computador na sala ao lado. O aparelho captura e processa as minhas ondas cerebrais enquanto jogo uma série de games. Tudo isso em duas sessões totalmente diferentes. Na primeira estava sóbria, agora estou um tanto bêbada. Os games são projetados para avaliar minha memória de curto prazo, minha capacidade de guardar informações por pouco tempo e minha habilidade de realizar tarefas simultâneas.

Uma hora depois, Gevins e Ilan mostram os resultados dos meus testes. O software desenvolvido por eles analisou combinações da atividade rítmica de meu cérebro e sinais elétricos ligados a eventos específicos, como o surgimento de um alvo em potencial no game que estava jogando. "No começo você estava tensa, mas depois o álcool te deixou bem relaxada", diz Gevins, ao mesmo tempo em que analisa, compenetrado, as imagens da minha atividade cerebral na tela do computador.

Minha performance nos games melhorou depois que bebi, provavelmente porque já estava mais experiente. Mas as imagens revelam o verdadeiro impacto do álcool na minha função cerebral. Meu cérebro teve que trabalhar mais pesado. E ficou mais lento ao reagir aos alvos que pintaram na tela durante o jogo. Meu tempo de reação ficou mais rápido, muito provavelmente porque meu sistema motor tinha mais prática no uso do mouse. Logo, se não fosse o exame, seria praticamente impossível notar o efeito da droga em meu cérebro.


Com permissão da revista "Technology Review", uma empresa do MIT, 2008




  Autor:   galileu


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08/04/2013 - Geral - Carros dublês, placas cronadas
órgão investiga 1.600 processos de reclamações....
08/04/2010 - Geral - 'Riscagem' de pneus pode ameaçar a segurança dos motoristas .
"É infração grave com multa de R$ 127"...
01/04/2010 - Geral - Permissão para Dirigir
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26/03/2010 - Geral - Concessionária tem de registrar carros
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